20 novembro 2017

[Resenha] O urso e o rouxinol - por Katherine Arden


Título: O urso e o Rouxinol
Autor (a): Katherine Arden
Páginas: 320
Cortesia: Rocco
Skoob || Goodreads
Compre: Amazon || Submarino || Americanas

Sinopse: O urso e o rouxinol mistura aventura, fantasia e mitologia ao acompanhar a jornada da jovem Vasya, criada, junto aos irmãos, num vilarejo próximo de uma floresta, e que cresceu ouvindo de sua ama contos e lendas sobre criaturas que vivem nas matas e que precisam receber oferendas para manter o mal adormecido em seu interior. Mas a chegada de Anna, madrasta de Vasya vinda da capital, de hábitos católicos, e de um padre ortodoxo que resolve instituir as práticas cristãs no vilarejo, provoca uma mudança na rotina da menina e abre as portas para uma terrível catástrofe. Sensível e determinada, Vasya é a única que consegue enxergar e conversar com esses seres fantásticos e torna-se a última esperança para salvar o povoado onde nasceu da destruição.


"– Eu quero uma história – falou Marina na mesma hora. Seu tom era leve, mas os olhos estavam sombrios. Dunya dirigiu-lhe um olhar penetrante. Lá fora, o vento arfava. – Conte-nos a história de Gelo, Dunyashka. Conte pra gente sobre o demônio-do-gelo, o rei do inverno, Karachun. Esta noite ele está ao largo, furioso com o degelo.
Dunya hesitou. As crianças mais velhas entreolharam-se. Em russo, Gelo chamava-se Morozko, o demônio do inverno, mas houve época em que era chamado de Karachun, o deus-da-morte. Sob esse nome, era rei do soturno solstício de inverno, vindo em busca de crianças malcriadas e as congelando à noite. Era uma palavra de mau agouro e dava azar pronunciá-la enquanto ele ainda tinha a terra em seu poder. Marina segurava o filho bem apertado. Alyosha retorceu-se e puxou a trança da mãe.
– Muito bem – disse Dunya, após um momento de hesitação. – Contarei a história de Morozko, da sua bondade e da sua crueldade. – Ela colocou uma leve ênfase nesse nome, o nome seguro que não poderia lhes trazer má sorte."

Em um vilarejo no norte da Rússia, Pyotr Vladimirovich era um dos senhores mais ricos e que possuía a maior parte das terras da aldeia. No entanto, nada disso servia quando o inverno chegava. Com riqueza ou não, todos sofriam com o implacável frio e com a fome, pois nos campos, quase nada que se plantava vingava. Uma das únicas coisas que mantinha todos aquecidos nas longas noites congelantes, era as antigas fábulas que Dunya, a ama que acompanhava a família há muitos anos contava. Nelas, Dunya falava de demônios, espíritos, e outros seres que viviam nas florestas, passando de geração a geração as histórias que faziam parte do folclore russo. No entanto, aquele inverno estava sendo terrível. A magreza de cada pessoa da família se tornava aparente, e Marina, a mãe, sofria incessantemente, e tal situação piora quando ela descobre estar grávida. Porém, indo contra todas as probabilidades e todos os conselhos, ela decide que terá a criança, e intui, em seu íntimo, que será uma menina diferente, como havia sido a sua própria mãe, que fora no passado uma mulher com poderes de invocar a chuva, sonhar com o futuro e domesticar animais...

"– Não é só um colar – Dunya disse com dureza. – É um talismã, que Deus me perdoe. Tenho visto o rei do inverno. O colar é dele, e ele vai vir buscá-la.
– Você o tem visto? – Pyotr ficou em pé.
Dunya concordou com a cabeça.
– Onde você o viu? Onde?
– Sonhando – disse Dunya. – Só em sonhos. Mas ele manda os sonhos e eles são verdadeiros. Ele diz que eu tenho que dar o colar pra ela. Ele vai vir buscá-la no solstício de inverno. Ela não é mais uma criança. Mas ele é embusteiro; todos os reis são. – As palavras vieram atropeladas. – Amo Vasya como se fosse minha própria filha. Ela é corajosa demais para que seja bom. Tenho medo por ela."

O nascimento da criança se deu como Marina previra. Vasya chegou no mundo demonstrando toda a sua força e intensidade, mas no processo difícil do parto a mãe da criança perdeu a vida. O tempo passou, e Vasya cresceu uma criança indomável, rebelde e que desde muito pequena já demonstrava ser diferente. Quando tinha sete anos de idade, Pyotr decidiu que já não era mais possível que a menina fosse criada somente pela ama, então resolveu casar-se, e encontrou para si Anna, uma mulher devotamente religiosa e que abominava todas as histórias de espíritos e demônios, com as quais Vasya tinha tanta intimidade. Conforme o tempo correu, e com a chegada de um novo padre ao vilarejo, o acontecimento de coisas estranhas se intensifica, ao mesmo tempo que Anna passa a culpar a enteada por todas aquelas coisas. Porém, quando tudo começa a ficar difícil demais, somente Vasya consegue entender o que está ocorrendo e talvez é a única pessoa que pode encontrar a solução perante tanta devastação.

"– Você está velha demais pra contos de fadas.
– Estou? – indagou Vasya. Ela sorriu para ele, embora seus lábios tremessem.
Alyosha lembrou-se, subitamente, de todas as vezes que os olhos dela haviam se movido, seguindo coisas que ele não conseguia ver. Seus braços abaixaram. Eles se entreolharam.
– Vasya, prometa-me que vou te ver de novo.
– Dê pão pro domovoi – disse Vasya. – Vigie à noite, junto ao forno. A coragem poderá salvá-lo. Fiz o que pude. Adeus, irmão. Tentarei… tentarei voltar."

Invocando lendas Russas, costumes e muitos fatos dessa cultura, O urso e o rouxinol é uma história cativante, que tem o poder de nos envolver em suas tramas intrincadas e nos deixa chegar ao fim com um imenso gostinho de quero mais.

"– Nada muda, Vasya. As coisas são ou não são. Mágica é esquecer que uma coisa já foi outra coisa além daquilo que você desejou que ela fosse."


Assim que fiquei sabendo desse lançamento, imediatamente o adicionei a minha lista de livros desejados. Mas, confesso que isso soou estranho até para mim mesma, já que se tem um gênero que eu não leio, esse gênero é fantasia. Porém, o fato de parecer ser uma fábula, com costumes e cultura de uma civilização como a russa me deixou com uma pulguinha atrás da orelha, e minha intuição dizia que eu gostaria dessa história, e,  realmente, eu estava certa, pois desde os primeiros parágrafos de O urso e o rouxinol me vi envolvida, ávida para descobrir o que viria na próxima página, e a cada capítulo lido, me senti cada vez mais fascinada com cada descrição da autora, que fazia com que eu me sentisse lá no pequeno vilarejo, acompanhando de perto cada um dos personagens, e também me vi aprendendo um pouco mais sobre um lugar que é tão distante de mim, e também sobre um tempo bem diferente.

 Não sei bem dizer o porquê eu fui gostar de uma fantasia, mesmo não sendo adepta do gênero, mas, uma das conclusões a qual cheguei, é que o livro me agradou tanto por ser uma história que bem poderia ser real, e traz o mundo como conhecemos, porém, trazendo nele elementos fantásticos, mas que estão presentes em todo folclore, somente postos de maneiras diferentes, e certamente, essa inserção da fantasia em um mundo que conhecemos foi o melhor ponto para mim. Além disso, o fato de tratar de temáticas como crenças x religiosidade, um tema que é presente em todos os tempos e lugares mexeu comigo bastante, e inclusive me levou a diversas reflexões. Também, achei maravilhosa a criação da personagem Vasya, que mostrou-se uma menina forte, decidida e determinada, basicamente um exemplo de mulher a ser seguido e que merece um forte destaque, e é um livro que foi construído sem muito romantismo, focando mais em relações familiares, de amizades, crenças, deveres das mulheres e outros pontos que instigam e se diferem dos que tem sido apresentados na maioria dos livros que tem surgido no mercado ultimamente. Posso ainda destacar a descrição de cada cenário, sentimento e clima, que foi muito bem feita e que me fazia até mesmo sentir o frio do lugar, o desespero, a solidão...

Quanto a pontos negativos, a única coisa que chegou a me incomodar, no final do livro, foi o fato de as coisas estarem demorando para acabar, e achei em alguns momentos que as reviravoltas poderiam parar de acontecer e que tudo poderia ter se resolvido mais rapidamente. Ainda assim, esse não foi um fator que tenha me feito gostar menos do livro, apenas me fez soltar alguns suspiros de impaciência. Mas, pensando bem racionalmente, para leitores que não gostam de histórias fantásticas que envolvem espíritos de proteção, demônios e outros seres míticos, essa pode ser uma história não tão agradável. Ou também, para aqueles que procuram um enredo bastante romântico, aqui não o encontrarão. E por fim, não é uma história de uma alta complexidade, mas ainda assim, como traz vários nomes russos e várias fábulas relatadas, a história requer um pouco mais de atenção, que para o leitor que estiver disposto a dá-la, valerá muito a pena.

Vasya é uma personagem extremamente marcante. Livre como o vento, ela não teme nada e é muito à frente de seu tempo, sendo exatamente o que sua mãe previra. É uma personagem que me causou admiração por diversos momentos e por quem me afeiçoei. Outra que me marcou foi Dunya, a ama da família, que é símbolo de proteção durante todo o livro, sendo a verdadeira mãe para todos os filhos de Pyotr que ficaram órfãos tão cedo. Além disso, os irmãos de Vasya são bem marcantes cada um a seu modo, e todos me causaram afeto em algum momento, e o pai, Pyotr, não é um homem cruel, o que me deixou bem animada. Por outro lado, senti muita irritação com Anna, a madrasta, uma mulher que apesar de ter esse destino imposto sem que ela quisesse, mas que não fez em nenhum momento nada para melhorar isso e somente reclamou e se deixou dominar pelo fanatismo durante todo o livro.

O livro é narrado em terceira pessoa, e dividido em vinte e oito capítulos, além de trazer no final uma nota da autora, onde ela fala sobre o que usou de real e o que transformou em ficção, e também traz um glossário, onde esclarece algumas expressões russas. Ainda, cabe destacar que realizei a leitura em ebook e não encontrei erros.

Recomendo essa obra para os fãs de fantasia, ou amantes de história que envolvem fábulas e folclore, pois esse certamente será um enredo cujo caminho trará muitas descobertas e uma viagem que nos conduz a uma maravilhosa narrativa.

14 comentários:

  1. Boa tarde! Sou fã dos livros de fantasia e folclore e com certeza este livro vai entrar na minha lista. Também tenho problemas quando o desenrolar da história demora a acontecer e os fatos vão ficando arrastados, mas nem por isso deixo de ler pra ver o final do livro, né? Acho que o livro conta com personagens bem constrúidos o que facilita a leitura do mesmo, mas me preocupo que não encontrarei um enredo Romântico, já que valorizo bastante isso nos livros que leio. Obrigada pela belíssima resenha, Tamara.
    Um abraço da Equipe Amores e Livros

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  2. O livro é lindo e essa mistura de fábula com folclore pode resultar em uma história mais linda ainda. Essa é a segunda resenha que vejo do livro e ambas concordam que a narrativa é maravilhosa, sendo assim, dica anotada.

    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  3. Eu não gosto de fantasia, mas confesso que os elementos que você descreveu neste enredo me deixaram curiosa e acho que seria uma leitura que agregaria para mim. Gosto deste toque de folclore também, então, o interesse é grande.
    Meu Amor Pelos Livros
    Beijos

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  4. bem, eu curto Fantasia, e justamente por não focar em romances e ter toda uma ambientação no folclore russo, eu leria o livro tranquilamente... a questão dos nomes russos não seria um problema pra mim, pq já tenho o hábito de ler literatura do país.
    o que não curti foi a capa, que mesmo para um livro de fábula, achei infantil demais...

    bjs...

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  5. Heiii, tudo bem?
    Ahhhh sou apaixonada por essa capa de O urso e o Rouxinol!!!
    Coisa mais linda e tb adicionei a lista de desejados, pena que nao baixou na black.
    Adorei saber mais sobre a história e amooo saber mais de outras culturas, a russa é uma que sei mto pouco e acho que vai ser uma leitura mto rica.
    Adorei a dica.
    Beijos.

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  6. Oi, Tamara

    Eu também não gosto de fantasia e, apesar de ter me proposto a ler mais do gênero (e curiosamente tenho tido boas surpresas) esse livro em questão soou-me muito juvenil. Fantasia para funcionar comigo tem que ter uma pegada bem mais dark e adulta.
    Por isso eu não leria. Que bom que você acabou curtindo!

    Beijos
    - Tami
    http://www.meuepilogo.com

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  7. Acho a capa desse livro muito fofa.. Adoro histórias de fantasia e fiquei bem interessada nesse livro. Sua resenha está muito bem escrita. Adorei!

    Bjs
    Suka
    http://www.suka-p.blogspot.com.br

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  8. Oi!
    Eu adoro fantasias e não é a primeira vez que vejo falar super bem desse livro.
    Pela sua resenha dá pra perceber que é algo que eu com certeza leria, espero ter a oportunidade em breve.

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  9. Oi, tudo bem?
    Eu me apaixonei por esse livro por causa da capa, mas ainda não tive a oportunidade de ler. Fiquei animada ao saber que, mesmo não gostando de fantasia, você gostou dessa leitura.
    Achei interessante ser uma história que traz o mundo que conhecemos, mas com toque de fantasia e folclore. Além disso, me pareceu que, mesmo sendo uma trama simples, os personagens são interessantes e a leitura é cativante.
    Adorei a resenha e fiquei ainda mais curiosa para ler este livro.
    Beijos!

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  10. Oi Tamara, tudo bem?
    Já conhecia esse livro e estou louca para ler porque, diferente de você, sou a louca das fantasias. Gostei muito da sua resenha e achei muito legal você ter apreciado a leitura, mesmo não sendo seu gênero favorito.
    É uma pena que o final tenha demorado para acontecer, eu não curto isso em livros haha
    Fiquei intrigada para ler esse livro e saber o que vou achar.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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  11. Oi,
    eu nunca havia ouvida/lido nada a respeito desse livro acredita? Eu nunca fui muito de ler fantasias, mas esse ano eu me joguei e tive incontáveis boas experiências, e já estou mais aberta a leituras do gênero. Apesar disso, a premissa desse livro não me atrai, não sou muito chegada em folclore e coisas do tipo e talvez tenha sido este o principal ponto que me desanimou.

    Abraços!
    Nosso Mundo Literário

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  12. Oie amore,

    Não conhecia o livro mas me encantei por essa capa, que lindeza.
    A história parece ser bem gostosa também.
    Como amante da literatura fantástica, claro que vou gostar.

    Beijokas!
    www.facesdeumacapa.com.br

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  13. Olá!

    Eu já vi a capa desse livro por aí várias e várias vezes, mas nem tinha lido a sinopse dele. Confesso que fiquei bastante surpresa pelo fato de se tratar de uma fantasia e ainda mais de constatar por meio dos seus comentários sobre a trama que se trata de um livro que eu gostaria muito de ler. Adorei poder acompanhar sua opinião, obrigada pela dica!

    Ingrid Cristina
    Blog Catarse Literária

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  14. Olá!

    Não conhecia o livro e confesso que se não foce pela sua resenha não olharia para ele duas vezes, a capa não me passa aquela vontade alucinante de ler. Enfim, se ele conseguiu ganhar uma não fã de fantasia imagina o que vai fazer com uma apaixonada como eu? Já adicionei a listinha, não sei quando, mas lerei com certeza.

    Beijos

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