10 outubro 2017

[Mês do Terror] Resenha: O Historiador - Por Elizabeth Kostova



Título: O Historiador
Autor (a): Elizabeth Kostova
Páginas: 544
Editora: Suma de Letras
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Sinopse: Certa noite bem tarde, ao explorar a biblioteca do pai, uma jovem encontra um livro antigo e um maço de cartas amareladas. As cartas estão todas endereçadas a "Meu caro e desventurado sucessor", e fazem mergulhar em um mundo com o qual ela nunca sonhou - um labirinto onde os segredos do passado de seu pai e o misterioso destino de sua mãe convergem para um mal inconcebível escondido nas profundezas da história.
As cartas fazem alusão a um dos poderes mais maléficos que a humanidade jamais conheceu, e a uma busca secular pela origem desse mal e sua erradicação. É uma caça à verdade sobre Vlad, o Empalador, o governante medieval cujo bárbaro reinado gerou a lenda de Drácula. Gerações de historiadores arriscaram reputação, sanidade, e até mesmo as próprias vidas para conhecer essa verdade. Agora, uma jovem precisa decidir continuar ou não essa busca - e seguir seu pai em uma caçada que quase o levou à ruína anos antes, quando ele era um estudante universitário cheio de energia e sua mãe ainda era viva.

Juntando indícios escondidos e textos até então desconhecidos, e interpretando as mensagens em código enredadas na trama das tradições monásticas medievais – bem como esquivando-se dos adversários que farão de tudo para proteger os milenares poderes de Vlad -, uma mulher desvenda o segredo de seu passado e enfrenta a própria definição do mal. O Historiador é uma aventura de proporções monumentais, uma narrativa incansável que mistura fato e fantasia, passado e presente, em um estilo de suspense quase intolerável – e impossível de esquecer.

O que a lenda de Vlad, o Empalador tem a ver com o mundo moderno? Será possível que o Drácula mítico tenha realmente existido – e continuado a viver, pelos séculos afora? A resposta a estas perguntas atravessa o tempo e as fronteiras enquanto primeiro o pai, e depois a filha perseguem pistas que os levam de empoeiradas bibliotecas de universidades norte-americanas a Istambul, Budapeste e os confins da Europa oriental. Em cada cidade, monastério e arquivo, em cartas e conversas secretas, emerge a horrível verdade sobre o feroz reinado de Vlad – e sobre um pacto atemporal que pode ter mantido sua monstruosa obra viva através dos tempos.

Elspeth, ou Elsie, como é carinhosamente chamada pelo pai, é filha de um diplomata que em algum lugar da década de cinquenta foi um jovem doutorando em História que possuía um brilhante futuro acadêmico. Essa última informação poderia ser pouco relevante se, em uma noite tediosa em Amsterdã, onde ela então residia, não tivesse encontrado um antigo maço de cartas amareladas cujo começo sempre diz a mesma frase: "Meu caro e desventurado sucessor".

A partir dessa descoberta, a jovem finalmente saberá sobre o misterioso passado sobre o qual seu pai, Paul, nunca comenta. O que inclui sua mãe, falecida quando Elsie era somente um bebê.
Elsie não imagina, no entanto, que a história por trás do passado de seu amado pai teve trágicos desdobramentos que transformaram profundamente a existência dele, de seu antigo orientador, o misteriosamente e até hoje desaparecido professor Rossi e sua mãe, cuja história com seu pai se entrelaça de modo intrínseco à investigação da verdade sobre um dos mais famosos tiranos que o mundo já conheceu: Vlad III ou simplesmente, Vlad, o Empalador.




Mais uma vez, estou resenhando um livro que definitivamente não é para qualquer leitor.

Só para vocês terem uma ideia, eu li metade dele nada menos que duas vezes, porque as descrições extensas e detalhadas por vezes me cansavam, e podem cansar o leitor, e só na terceira finalizei a leitura como um todo.

“Virei-me, impaciente, com a intenção de ir ver onde ele estava, quando ouvi um ruído no fundo da sala. Foi uma espécie de pancada seca, mais uma vibração através do chão do que propriamente um som, como o de um pássaro que choca com um vidro em pleno voo. Alguma coisa me fez levantar e ir na direção do impacto, o que quer que fosse, e dei comigo a correr para a sala de trabalho no fundo do salão. Não via Mr. Binnerts através das janelas, o que por um momento foi um alívio, mas quando abri a porta de madeira havia uma perna no chão, uma perna dentro de umas calças cinzentas, ligada a um corpo contorcido, a camisola azul enviesada no tronco torcido, o cabelo grisalho emaranhado e ensanguentado, o rosto misericordiosamente meio escondido dilacerado, uma parte dele ainda na esquina da secretária. Um livro tinha aparentemente caído da mão de Mr. Binnerts. Na parede, por cima da secretária, havia uma mancha de sangue, com uma grande e bem definida marca de mão, como uma pintura infantil. Esforcei-me tanto por não fazer qualquer ruído que o meu grito, quando veio, parecia ter saído de outra pessoa.” – Pág. 95.

Devo dizer, foi o livro que me fez relembrar o quanto sou apaixonada por História, minha matéria, de longe, favorita do colégio e foi até mesmo minha primeira opção de faculdade quando estava na época de pensar nisso. A edição física, por sua vez, é nada menos que maravilhosa, apesar das folhas brancas. A fonte, porém, está de bom tamanho e a revisão é nada menos que impecável. Um excelente trabalho da Suma de Letras.



O Historiador, da autora americana Elizabeth Kostova, segundo a própria, foi baseado em pelo menos uma década de extensa pesquisa sobre as lendas cercando Vlad Tepes, o bloco comunista europeu, a vida monástica nos idos do século quinze, as invasões turco-otomanas na Europa (o Império Turco-Otomano teve fim com o advento da Primeira Guerra Mundial, assim como o Russo e o Austro-Húngaro) e pelo menos um bom número de guias turísticos, considerando a quantia de descrições envolvendo as viagens da protagonista.

“Quando a tampa da caixa de segredos do sultão Mehmed foi aberta, emanou dela um cheiro que eu conhecia bem. Era o cheiro de documentos muito antigos, de pergaminho, de pó e de séculos, de páginas que o tempo há muito começara a corromper. Era o mesmo cheiro do pequeno livro em branco com o dragão no centro, o meu livro. Nunca tivera coragem de o cheirar diretamente, como em segredo fizera com alguns dos outros volumes antigos que tinha manuseado — tinha medo, acho eu, que pudesse haver algum traço repugnante no seu odor, ou, pior, algum poder no cheiro, uma droga maligna que não queria inalar.” – Pág. 189.



Que mal pode ser considerada assim já que a maior parte do livro é narrada no passado e os reais protagonistas são na verdade Paul e Helen, os pais dela, que acabaram se conhecendo devido a uma pesquisa em comum: o tirano Vlad III, também conhecido como Vlad, o Empalador (não recomendo procurarem isso no Google ou terão pesadelos à noite). Que, caso não tenha ficado claro, foi, em parte, a inspiração para o mais famoso vampiro da literatura mundial, Drácula. Que por sua vez, inspirou a autora a escrever a maior parte do livro em forma de cartas, o que nos dá uma ideia do ponto de vista de vários personagens diferentes. Inclusive o casal se conhece quando ela está em posse do único exemplar da universidade e Paul está desesperadamente interessado no livro depois que as pistas do desaparecimento do professor Bartolomew (Bartolomeo) Rossi levam nosso mestrando (à beira de um ataque de nervos) a descobrir que seu orientador estava metido até o pescoço (figurativa ou literalmente?) em uma investigação sobre Vlad III.

“— Folheei todas aquelas maravilhas e outras que ele colecionara em Inglaterra, talvez depois da viagem, até encontrar uma História da Hungria e da Transilvânia, na qual deparei com uma referência a Vlad Tepes, e mais outra, e, finalmente, para minha alegria e espanto, encontrei um relato do enterro de Vlad no lago Snagov, diante do altar de uma igreja que ele restaurara lá. Esse relato era uma lenda passada para o papel por um aventureiro inglês que estivera na região, alguém que se autodenominava simplesmente "Um Viajante" na página de rosto e que fora contemporâneo do colecionador jacobino. Isto deve ter sido cerca de cento e trinta anos depois da morte de Vlad.” – Pág. 289.


Aparentemente, uma pesquisa histórica não deveria causar tantos problemas, mas apenas imagine que um dos piores tiranos da história ainda está vivo, mesmo morto, e espalhando sua pestilência pelo mundo. Imaginou? Bem, some isso ao fato de que Paul e Helen, na pista do desaparecido Rossi, tem de viajar DENTRO do bloco comunista europeu durante a década de cinquenta (União Soviética, sacam?) se valendo de todo o tipo de mentiras diplomáticas e universitárias (e um bocado de dinheiro). Isso sem contar o fato de que tem até a polícia secreta dos comunas na bagunça (mais precisamente na Hungria e Bulgária) e os dois são obrigados a tomar todos os cuidados se não quiserem “desaparecer” caso alguém descubra o que eles realmente querem. Sem mentira alguma, tinha vezes no livro que eu precisava segurar a respiração porque o negócio se provou realmente tenso. Ainda mais quando um dos “comunas” tem um passado com a Helen, coisa que ela agora repudia.

“Lembrava-me muito bem da estação rodoviária de Perpignan, onde estivera com o meu pai no ano anterior, esperando pelo autocarro empoeirado que ia para as aldeias. Agora, o autocarro encostou novamente e Barley e eu entramos nele. A nossa viagem a Lês Bains, percorrendo largas estradas rurais, também me era familiar. As cidades pelas quais passávamos eram circundadas por plátanos com as copas aparadas em quadrado. Árvores, casas, campos, carros velhos, tudo parecia ser feito da mesma poeira, uma nuvem cafe-au-lait que cobria tudo.” – Pág. 388

Claro que tudo isso se vale de descrições muito detalhadas, que como já falei, podem cansar quem está lendo. Porém, admiro a dedicação da Elizabeth Kostova na pesquisa, porque confesso que a maior parte das referências me era desconhecida, e mais ainda a preocupação dela em fazer a história ser crível, realista e coesa apesar de todo o elemento sobrenatural presente. Até mesmo a construção do romance de Paul e Helen, dentro do que era possível devido aos fatos, é coerente e bem realizada. Além de ser impossível não se comover com a história de origem da Helen, que só não ponho aqui por ser spoiler e também porque me dá vontade de chorar quando relembro. Especialmente pelo desdobramento do negócio. Só lendo mesmo é que vocês vão sentir o drama e lógico, passar aquela raiva quando descobrirem o real motivo. Creiam, em nada se parece com o que vocês já leram.

“A cripta era o lugar mais escuro em que já alguma vez estive, com todas as suas velas apagadas, e fiquei satisfeito pelos dois pontos de luz que trazíamos. Acendi as velas com a que tinha na mão. A chama delas ergueu-se, fazendo cintilar os bordados a ouro do relicário. As minhas mãos tinham começado a tremer bastante, mas consegui tirar a pequena adaga de Turgut do meu bolso, onde a guardava desde que saíra de Sofia. Pousei-a no chão junto do relicário, e Helen e eu tiramos delicadamente os dois ícones dos seus lugares dei comigo a desviar os olhos do dragão e São Jorge e encostamo-los a uma parede. Removemos o pesado tecido e Helen dobrou-o e pô-lo de lado. Durante todo esse tempo, eu estava atento com todas as fibras do meu corpo a qualquer ruído, ali ou na igreja por cima, até que o próprio silêncio começou a zumbir e a sibilar nos meus ouvidos. Houve um momento em que Helen agarrou na minha manga e ficamos a ouvir juntos, mas nada se mexeu.” – Pág. 474.




Outra coisa que não posso deixar de admirar é o modo como Kostova constrói a mitologia dentro do “universo” dela e a maneira como ela detalha o passo a passo da situação, quando ela acontece no livro, o que não são raras vezes. Além da GENIAL sacada do título, que, vou confessar, me pegou de surpresa, pois nem nos meus sonhos mais loucos imaginei aquilo. Sem contar o modo como Elizabeth encaixa todos os pontos da história sem deixar nada solto e deixa o leitor com aquela de cara de “eita!”. Isso tudo, porém, eu deixo com quem quiser ler, já que também é spoiler.

Ao fim e ao cabo, dei cinco estrelas ao livro porque, apesar de alguns pontos que soam negativos a alguns, ele é realmente muito bom. Mas, recomendo só a quem tiver realmente paciência, gostar muito de História e souber apreciar cada linha do livro com a olhada que ele merece.

Reflexão pós-texto:

“— Com a sua inflexível honestidade, pode ver qual é a lição da História — disse. — A História ensinou-nos que a natureza do homem é má, de uma maldade sublime. O bem não é aperfeiçoável, o mal, sim. Por que não pôr a sua mente privilegiada ao serviço do que é aperfeiçoável? Peço-lhe, meu amigo, que se junte a mim por vontade própria na minha pesquisa. Se o fizer, vai evitar uma grande angústia para si mesmo e vai poupar-me um considerável aborrecimento. Juntos, vamos fazer o trabalho do historiador avançar para lá de qualquer coisa que o mundo alguma vez já viu. Não há pureza como a pureza dos sofrimentos da História. Terá o que todo o historiador quer: a história será realidade para si. Limparemos as nossas mentes com sangue.”

10 comentários:

  1. Eu tbm já cheguei a optar por História na época do vestibular e ainda penso em fazer hoje em dia. Amo muito, mas confesso q não tenho paciência para livros com descrições extensas e maçantes. A trama parece ser realmente incrível, toda essa coisa com Vlad e tal me atrai muito, mas só de saber q a autora perde tempo detalhando coisa demais, já sinto preguiça... Kkkk... Fico feliz q tenha persistido e gostado, eu ja cheguei na fase em que não dá pra perder tempo com aquilo q não tá me levando a lugar nenhum... 😂

    Raíssa Nantes

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  2. Confesso que jamais me chamaria a atenção esse livro se não fosse essa resenha maravilhosa! Sério... a capa, sinopse ou a premissa não são tão empolgantes quanto a tua resenha!

    Vou anotar a dica!
    Bjos

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  3. Oi Renata,
    Como você falou esse não é um livro para qualquer leitor dá para ver pelos quotes. Infelizmente para mim acho que tem descrições demais e acredito que desanimaria ao longo da leitura mas fiquei curiosa em relação ao Vlad e a garota da pesquisa rs.
    Beijos
    Raquel Machado
    Leitura Kriativa
    leiturakriativa.blogspot.com

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  4. A capa não me chamou a atenção mas pela sua resenha eu fiquei maravilhada com o livro. Quero esse livro pra mim. Já coloquei na lista de desejados.

    Bjs
    Suka
    http://www.suka-p.blogspot.com.br

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  5. Oi, Renata!
    Adoro livros que vem como mapa. Por ser um livro bem ao estilo histórico, e o título já no revela isso, acredito que eu não iria curti. Livro extenso sempre me deixam fadigada. Você teve que tentar três livros para concluir, imagine eu. rsrs...
    Beijão!
    http://www.lagarota.com.br/
    http://www.asmeninasqueleemlivros.com/

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  6. Olá...
    Adorei a sua resenha!
    Infelizmente, não é o tipo de leitura que ando buscando no momento, mas, fiquei interessada em ler, então, vou anotar pra ler futuramente... Adorei seus comentários e a edição parece estar linda <3
    Bjo

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  7. Oi, Tudo bom?
    Eu não conhecia o livro, mas fiquei muito curiosa sobre o mistério que acontece ainda quando a protagonista é um bebe, curto narrativas assim, que nos deixa curiosa.
    beijos, Joyce de Freitas.

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  8. Oi!
    Ainda não conhecia esse livro, estou adorando essas leituras de halloween por aqui.
    Pela sua resenha deu pra perceber que ele é um livro um pouco descritivo demais, porém possui uma história muito interessante e se o leitor gostar um pouco mais de história e de mistérios com certeza não vai ligar muito para o tamanho das descrições.

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  9. Olá Renata, parabéns pela resenha. Ficou muito boa. A história do livro parece ser bem interessante, mas não me chamou a atenção. Não sou mto fã deste tipo de livro, mas para quem gosta como vc é uma boa pedida.
    Até a proxima!

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  10. É, acho que vou passar sua dica então porque livros cansativos, me deixam mega desestimulada a ler. Já leio bastante texto massante pra faculdade, por prazer eu preciso de mais dinamismo!! hahuauha
    Entretanto, gostei de conhecer a obra aqui em seu blog. Parabéns pela resenha!


    Beijinhos!

    #Ana Souza
    https://literakaos.wordpress.com

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