15 setembro 2017

[Resenha] Quarto - Por Emma Donoghue



Título: Quarto
Autor (a): Emma Donoghue
Páginas: 350
Editora: Verus
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Sinopse: Para Jack, um esperto menino de 5 anos, o quarto é o único mundo que conhece. É onde ele nasceu e cresceu, e onde vive com sua mãe, enquanto eles aprendem, leem, comem, dormem e brincam. À noite, sua mãe o fecha em segurança no guarda-roupa, onde ele deve estar dormindo quando o velho Nick vem visitá-la.
O quarto é a casa de Jack, mas, para sua mãe, é a prisão onde o velho Nick a mantém há sete anos. Com determinação, criatividade e um imenso amor maternal, a mãe criou ali uma vida para Jack. Mas ela sabe que isso não é suficiente, para nenhum dos dois. Então, ela elabora um ousado plano de fuga, que conta com a bravura de seu filho e com uma boa dose de sorte. O que ela não percebe, porém, é como está despreparada para fazer o plano funcionar.


"oje eu tenho cinco anos. Tinha quatro ontem de noite, quando fui dormir no Guarda-Roupa, mas quando acordei na Cama, no escuro, tinha mudado pra cinco, abracadabra. Antes disso eu tinha três, depois dois, depois um, depois zero.
- Eu fui um número negativo?
- Hã? - disse a Mãe, dando uma espreguiçadona.
- Lá no Céu. Eu fiz menos um, menos dois, menos três...?
- Não, os números só começaram quando você desceu zunindo.
- Pela Claraboia. Você andava toda triste até eu acontecer na sua barriga."

Jack é um garotinho de cinco anos, que vive em um mundo muito pequeno, mais especificamente, um mundo que mede onze pés. Esse lugar é o "quarto", local onde Jack nasceu (ele até consegue ver a mancha de sangue do dia do seu nascimento no tapete ao lado da cama), e para ele, somente ele e a sua mamãe são reais, e claro, o velho Nick, nome que ele deu ao seu carcereiro, e ele imagina que as coisas que ele vê pela tela da televisão são todas ficção.  Jack carrega essa ilusão para mascarar uma vida trágica, visto que sua mãe foi sequestrada aos dezenove anos de idade, e permaneceu ali, em cativeiro. A princípio, ela apenas assistia televisão e imaginava que enlouqueceria, mas o nascimento de Jack, mesmo que vindo das relações sexuais forçadas que ela tinha com o monstro que a sequestrara, foi o melhor presente que ela podia querer, e também sua salvação. Assim que o garotinho começou a crescer, sua mamãe criou todo um ambiente que pudesse demonstrar o máximo de normalidade: com os potes, caixas e restos de produtos, criava brinquedos; com o pouco espaço que tinha, fazia o menino se exercitar, correndo, pulando e brincando; e também ensinava Jack a ler e a escrever, com esperança de proporcionar o máximo de ensinamentos que pudesse ao filho.

"- Sabe de uma coisa? Quando eu tiver dez anos, vou ser grandão.
- Ah, é?
- Vou ficar maior e maior e maior, até virar uma pessoa humana.
- Na verdade, você já é humano - disse a Mãe. - Humanos é o que nós dois somos.
Eu pensava que a palavra para nós era reais. As pessoas da televisão são feitas só de cores.
- Você quis dizer uma humana, uma mulher?
- É - respondi -, uma mulher com um menino num ovo na minha barriga, e ele também vai ser real. Ou então, vou crescer e virar um gigante, mas um gigante bonzinho, até aqui - e pulei para tocar na Parede da Cama bem alto, quase onde o Teto começa a se inclinar pra cima."

Porém, poucos dias após o aniversário de Jack, a mãe do garotinho faz algo simples que desagrada o sequestrador, e ele, revoltado, corta a energia e deixa mãe e filho passando frio e logo fome também. É dessa forma que a jovem mãe de Jack, que já sofreu tanto naqueles sete anos presa, resolve que aquela vida não é mais possível. Ela deseja dar um pouco de normalidade àcriança, , quer respirar ar puro e não ficar apavorada todas as vezes que ouve os bips que simbolizam o velho Nick digitando o código para entrar no cativeiro, e, mais que tudo, ela não quer mais ver seu menino dormindo noite após noite no guarda-roupas. É dessa forma que ela tem uma ideia aterrorizante mas necessária: a  de embrenhar-se em uma fuga, mesmo que isso pareça impossível. Para isso, precisará contar com seu garotinho corajoso,. Mas além dos riscos físicos que essa empreitada traz, ela não imaginava todos os desafios que enfrentaria ao fazer Jack perceber que existe um mundo lindo lá fora do quarto, todo pronto para ele explorar, e para recebê-lo de braços abertos.

"O Lá Fora tem tudo. Agora, toda vez que eu penso numa coisa, como esquis ou fogos de artifício ou ilhas ou elevadores ou ioiôs, tenho que lembrar que eles são reais, acontecem todos juntos de verdade no Lá Fora. Isso deixa minha cabeça cansada. E as pessoas também, bombeiros, professores, ladrões, bebês, santos, jogadores de futebol e gente de todo tipo, eles todos estão mesmo no Lá Fora. Mas eu não estou lá, eu e a Mãe, nós somos os únicos que não estão lá. Será que ainda somos reais?"

Com uma narrativa tocante, uma ingenuidade pouco encontrada na literatura e um personagem que nos deixa encantados, Quarto é uma lição sobre os diversos Jacks que vivem por aí, e sobre o quanto devemos apenas agradecer pelas dádivas simples que recebemos diariamente.

"- Só porque você nunca os conheceu, não quer dizer que eles não sejam reais. Há mais coisas na terra do que você jamais sonhou."





É difícil saber por onde começar a falar sobre esse livro, que é uma obra ao mesmo tempo tão linda e tocante, e tão ingênua e simples. Sempre que ouvia falar no "Quarto" eu não conseguia sequer imaginar que amaria tanto tal leitura, tanto que ele estava na minha lista de livros a serem lidos há bastante tempo, já que foi lançado em 2011, mas eu nunca tirava um tempo para lê-lo, até que resolvi que estava cansada de algo que envolvesse romance, e também vinha vendo desde o ano passado uma maior propagação da obra, depois que ela teve sua adaptação para o cinema,  e então, embarquei na história de Jack e sua mãe.

Em primeiro lugar, é necessário destacar que não se pode entrar nessa leitura esperando uma obra pesada, que descreva de forma detalhada os atos do sequestrador, ou que descreva de forma complexa os sofrimentos. Não, o que encontramos aqui é uma narrativa singela, toda pelo ponto de vista de Jack (em nenhum momento ouvimos a voz da mãe do garoto), e um menininho falando de seu dia a dia e do que ele conhece como normalidade. Para ele, aquele lugar pequeno, o fato de não poder pisar na terra, ele nem sabia o que era terra, e o fato de nunca respirar ar puro era bastante natural, já que ele nunca tinha experimentado essas coisas. Dessa forma, ele começa nos relatando sobre o dia do seu aniversário de cinco anos de idade e de como ele o comemorou. Aqui, podemos já perceber o que viremos a comprovar durante todo o enredo, Jack é ao mesmo tempo um menino ingênuo e com a mentalidade infantil própria da sua idade, tanto que ele nos apresenta até algumas palavras faladas erradas, sintoma do seu aprendizado que ainda está em evolução, mas ao mesmo tempo se mostra um garoto que possui pensamentos maduros, que mesmo sem compreender tudo o que se passa ao seu redor, sabe que algumas coisas são difíceis, que algumas não devem ser mencionadas e que não pode se aproximar do velho Nick, pois ele não é alguém de quem a mamãe gosta.

Essa leveza que o enredo traz, mesmo abordando um tema forte, doloroso e polêmico, acabou se tornando o ponto que mais apreciei na obra, pois embora em algumas das narrações que Jack nos trouxe eu me emocionei, fiquei com um nó na garganta ou tive enjoos, eu também consegui realizar a leitura bem rápido, pois tudo é muito fluído, e queremos somente saber mais sobre a história daquele garotinho. Também, gostei muito do modo como tudo foi conduzido, sendo um livro no tamanho certo, sem se prolongar demais e sem deixar a desejar, e trouxe detalhes importantes para mergulharmos no mundo dessas duas pessoas tão feridas cada uma a seu modo. Também achei a escrita, que por vezes pode soar até meio simplista, uma sacada muito genial da autora, pois colocando os erros que um menininho de cinco anos teria na fala, e mostrando suas falas sem rodeios, mas bem articuladas, ela nos permite imaginar tudo com mais clareza.

Eu não posso dizer que encontrei pontos que seriam propriamente negativos, porém, o que mencionei acima, sobre a escrita simplista, pode se tornar um incômodo para quem não gosta desse tipo de abordagem. Ainda, algo que senti falta aqui foi a divisão de capítulos, pois achei tudo muito seguido. Ainda, embora eu saiba que poderia atrapalhar na beleza da obra, em alguns momentos eu desejei uma mínima visão pelo ponto de vista da mãe de Jack, a fim de conhecer a forma como ela se sentia e o que ela pensava.

Não há dúvidas de que Jack é o personagem que mais toca o coração do leitor nesse enredo. Ele é o protagonista e cumpre bem seu papel e toma com perfeição o espaço que lhe cabe, se tornando muito marcante e inesquecível para todos que lhe conhecerem. Porém, também sentimos afeição pela mãe de Jack, uma mulher cujo nome em nenhum momento é mencionado, e pelo que pudemos observar, através da narrativa da criança, sofreu muito e ama o filho acima de qualquer coisa, e demonstra bem o amor materno, disposto a qualquer sacrifício. Quanto ao sequestrador, vilão dessa história, embora vejamos vislumbres de sua crueldade, principalmente no episódio da energia, temos poucos contatos com ele, embora seu nome esteja pairando o tempo todo na história, visto que ele em boa parte é o responsável pela sobrevivência de mãe e filho. Ainda cabe destacar que os personagens secundários foram extremamente bem explorados, e há espaço para todos eles se destacarem, embora não caiba a mim mencioná-los a fundo, para não entregar partes cruciais do enredo.

Confesso que em certo momento da história, cheguei a fazer diversas conjecturas, pensei que teria um final aterrorizante, mas, por fim, o livro teve a capacidade de me surpreender e me fazer finalizá-lo ao mesmo tempo com lágrimas nos olhos e um sorriso bobo no rosto. É uma história de superação, de aprendizados, e de uma maior observação e sensibilização do mundo infantil, pois, aqui vemos muito bem que crianças sentem sim, que crianças entendem sim e que crianças precisam de compreensão, carinho e amor.

Essa é uma leitura que recomendo incondicionalmente, porque embora cada leitor sinta mais afinidade com um gênero ou outro, a história de Jack é universal, é bela, e é necessária para todos, e certamente, terá a capacidade de tocar os corações, mesmo que com diferentes graus de intensidade.

17 comentários:

  1. Oie!
    Eu já li o livro e é muito emocionante, mesmo!
    Eu sei que tem uma adaptação do livro, mas ainda não tive a oportunidade de assistir. Mesmo assim, o livro é muito bom!
    Bjks!
    Histórias sem Fim

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  2. Eu gosto demais deste livro e ele foi um dos meus favoritos de 2016 e esse misto de ingenuidade e crueldade, foi o que mais me ganhou pq a autora soube administrar bem isso.
    Meu Amor Pelos Livros
    Beijos

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  3. Querida Tamara
    Eu li este livro logo que saiu e eu AMEI!!
    O livro me prendeu do começo ao fim e o devorei.
    Um dos melhores livros que li. Favoritado!
    Adorei seu post e adoro acompanhar suas leituras
    Bjks mil, Lindona

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  4. Eu também, Já li o livro e concordo com cada palavra sua sobre ele e a minha opinião é que eu simplesmente amei esse livro eu acho que foi um dos top 10 que eu mais gostei e li mais rápido eu n tenho palavras pra descrever esse livro, é simplesmente pft.

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  5. Olá Tamara, não tive a oportunidade de ler o livro, apenas vi o filme e confesso que mexeu demais comigo, não sei se pelo drama do enredo ou pelo meu lado materno falar mais alto. E me fez recordar a Alegoria da Caverna, preciso ler o livro.

    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  6. Oiee Tamara ^^
    Esse livro é simplesmente uma obra de arte, né? Eu ainda consigo me lembrar de algumas cenas e do que eu senti em várias delas, inclusive dos momentos em que sentia meu peito doer pelos personagens. Cheguei a ver o filme pouco tempo depois de ler o livro, e é tão tocante quanto ♥
    MilkMilks ♥
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br

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  7. Oi, Tamara.
    Apesar de ter lido esse livro há muitos anos, quando ele foi lançado, ainda me lembro bem da história porque ele me marcou muito!! Eu amei o livro, mesmo ele sendo tão tenso!! Quando o filme foi lançado, não me interessei em assistir porque nada seria tão bom quanto a leitura!!
    Beijos
    Camis - blog Leitora Compulsiva

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  8. Oi tudo bem?
    Já ouvi muita gente falar desse livro e sou louca para ler ele me parece ser um livro muito emocionante e reflexivo, quero ler em breve.

    Beijos

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  9. Oi!
    Já perdi a conta de quantas indicações desse livro já recebi e de quantas resenhas li e em todas elas fico com uma enorme vontade de iniciar essa leitura. Com sua resenha não foi diferente, na verdade ela me fez questionar o porquê de eu ainda não ter o lido e, sinceramente, não sei a resposta. Só sei que a trama parece ser extremamente envolvente e bem escrita e uma leitura sensacional.
    Aliás, parabéns pela resenha!
    Beijos!

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  10. Fiquei curiosa por esse livro,por se tratar de assunto pesado,mas do qual a criança não tem noção do que se passa, parece muito interessante.

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  11. Olá!
    Que livro marcante e emocionante. Nunca tinha visto ou ouvido falar sobre ele. Achei muito interessante e uma ótima dica.

    beijinhos, Jenni

    sinopsedoslivrosjenni.blogspot.com

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  12. Assisti o filme, não tinha conhecimento do livro até ler a sua resenha. O filme me emocionou de tal maneira que o recomendei aos meus parentes. Se tiver oportunidade lerei o livro por ser mais completo. Gostei das suas impressões!
    Bjs,

    http://contosdacabana.blogspot.com.br/

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  13. Assisti a adaptação cinematográfica, desconhecia o livro! A história me deixou emocionada e a tal ponto que o recomendei aos parentes. Senti raiva do sequestrador e muita pena do Jack! Vou deixar o livro na minha lista, pelo fato de ser mais completo.
    Bjs,
    http://contosdacabana.blogspot.com.br/

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  14. Oii Tamara! Eu quero tanto ler esse livro. Desde o lançamento eu tenho muita vontade de ler, porém acabo não comprando e colocando outros na lista. Sua resenha reacendeu essa vontade e espero de verdade poder fazer a leitura logo, já sei que será uma experiência emocionante. Ótima resenha!
    Beijos

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  15. Oi, Tamara

    Curioso você falar que é uma leitura leve apesar do tema. Essa é a primeira vez que leio isso em uma resenha. Acho que eu amaria o Jack e toda sua inocência. Eu ainda não sei se quero ler o livro, sinto que me conectarei mais com a história através do filme, sabe? Também não sabia que o nome da mãe não era mencionado... achei interessante!

    Beijos

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  16. Oie, tudo bem??? Eu não li o livro mas assisti o filme. Imagino que o livro deva ser infinitamente melhor como geralmente é, mas a história é sensacional. Inteligente e prende o espectador. Com certeza é uma leitura que eu faria mesmo sabendo o final kkkkkkk Mas não achei a história leve não. Pelo contrário, achei bem densa. Tive muita pena do Jack durante o filme. Bjossss

    www.porredelivros.com

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  17. Oi.
    É realmente um tema muito pesado e a sacada da autora ao retratar tudo através do ponto de vista de uma criança para tornar tudo mais leve foi simplesmente genial.
    Passei por uma fase na qual estava fugindo de obras mas desas, mas, assim como você, estou cansando um pouco de obras que focam demais no romance.
    Essa obra parece ser uma excelente pedida para mim.
    Amei a resenha.
    Beijos.

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